Resenha: 1 Litro de Lágrimas – Diário da garota Aya

setembro 18, 2013 em Criticas, Livros, Resenhas por Luiz Fernando Teodosio

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A degeneração espinocerebelar é uma doença rara que destrói gradualmente as células nervosas do cerebelo, tronco cerebral e medula espinhal.  As consequências são bem cruéis para o portador, que aos poucos percebe certas dificuldades com relação ao seu corpo. Os sintomas incluem perda da fala, dificuldade de engolir, incapacidade de ler e escrever, inabilidade de reconhecer distâncias, falta de equilíbrio, rigidez dos músculos, perda de movimentos e etc. Todos esses agravantes ocorrem vagarosamente, dando ao portador da doença a impressão de que ele está perdendo o seu corpo. Eventualmente, o enfermo acaba em um leito aguardando a morte. A expectativa de vida para quem possui essa doença é de 21 anos. Não há cura! O máximo que é possível fazer é retardar seu avanço. Uma das pessoas alvejada pela degeneração espinocerebelar foi a japonesa Aya Kito, que lutou bravamente contra essa enfermidade e registrou todas as suas dificuldades  num diário posteriormente publicado com o nome de 1 Litro de Lágrimas (Ichi rittoru no namida).

Lançado originalmente em 1986, dois anos antes da morte de Aya, foi finalmente publicado aqui no Brasil em 2013 pela New Pop. As primeiras páginas mostram fotos coloridas de Aya em seus 15, 18 e 23 anos, além de um pequeno resumo de como estaria sua vida em cada um delas. O livro não é feito apenas do diário de Aya, mas também das palavras de sua mãe e de sua médica nos epílogos. Só é uma pena que a revisão da editora deixa a desejar em alguns trechos do livro.

O diário de Aya Kito deu origem a uma série televisiva de mesmo nome (dorama) com 11 episódios, que narrou de maneira emocionante a história da adolescente (apesar de romantizada), e digo que É UMA DAS HISTÓRIAS MAIS TRISTES QUE JÁ VI. Ao assistir 1 Litro de Lágrimas, é bem possível que o espectador chore essa quantidade (sei que é uma hipérbole, mas vai chorar muito, com certeza).

O livro é conhecido por quem já assistiu o dorama. Eu recomendo fortemente que aqueles que não conhecem essa história assistam a série televisiva antes de ler o diário, pois em questão de impacto, a adaptação para a TV é muito maior.

Mas o que os fãs da Aya devem querer saber é quais as diferenças entre o livro e o dorama. Antes de tudo, como é um diário, ele não possui toda a carga dramática de uma narrativa bem trabalhada como a série; são relatos sinceros, reais e angustiantes. A ficção tende a tornar tudo mais “bonito” e emocionante para chocar o receptor, mas sabemos que a realidade é dura e cinzenta. O maior exemplo dessa diferença é a inexistência do personagem Asou Haruto na vida real. Boa parte do dorama é trabalhado em cima da relação entre Aya e Haruto, uma relação afetiva que não chega a se transformar num romance por conta da doença que os separam. Então por que criaram um par romântico para ela na história? Obviamente, para inserir um bom drama que instigue o espectador. Contudo, em uma parte do livro, escrito pela doutora que acompanhava Aya (no dorama eles colocaram um homem), ela menciona que um estagiário de medicina sempre a visitava. Certo dia, Aya se aproximou da doutora e perguntou: “eu… vou poder me casar”. Foi essa passagem que inspirou a criação do personagem Haruto, inserido como um colega de classe de Aya e filho do diretor do Hospital. Eventualmente, o rapaz se graduaria em medicina.

Vale ressaltar também que  muitas cenas do dorama não ocorreram ou não aconteceram daquela forma. O diário é recheado de momentos cotidianos, o lado real e cruel da doença na sua convivência social. É possível ter uma visão muito profunda de como era o dia a dia de Aya. Super recomendo esse livro para aqueles que gostaram da série televisiva.